A necessidade do Curso de Pós-Graduação em Modelagem Computacional e Sistemas, na Universidade Estadual de Montes Claros, surge como consequência de mudanças de paradigmas tecnológicos ocorridas a partir de meados do século XX, que se aceleraram fortemente na virada para o século XXI. O processo que gerou a necessidade de tais mudanças é descrito pelas Ciências Econômicas como o da geração de vantagens competitivas. Países, ou regiões, conseguem por em funcionamento um ciclo de acúmulo de riqueza na medida em que estabelecem vantagens competitivas em seu sistema produtivo.

As teorias econômicas vigentes durante a maior parte do século XX não foram capazes de descrever adequadamente um processo que se revelou fundamental na economia contemporânea: o processo de inovação. De maneira simplificada, tais teorias geravam o seguinte paradoxo: ao ser inventada uma nova tecnologia gerava-se durante determinado período, um ganho de competitividade para a empresa onde tivesse ocorrido a invenção. Após algum tempo, entretanto, inevitavelmente ocorreria a propagação do conhecimento associado a essa invenção, e todos estariam novamente no mesmo patamar.

Uma leitura precisa das consequências do processo de inovação foi desenvolvida primeiramente no Japão, e depois na Coréia do Sul e Taiwan. A política industrial nesses países foi constituída, a partir dos anos 1960, sobre a premissa de que todo desenvolvimento tecnológico produziria ganhos de competitividade transitórios, que necessariamente iriam durar pouco tempo. Como conclusão, estabeleceram que suas economias deveriam se fundamentar na constante criação de novas tecnologias e de novos produtos, o que lhes reservaria, sempre, a vantagem competitiva característica de quem detém uma nova tecnologia.

Hoje faz parte da História o período que vai aproximadamente de 1960 a 1990, no qual esses países orientais se posicionaram no mundo como economias de primeira linha, com efeitos inicialmente devastadores sobre as economias americana e européia. Os anos 1970 a 2000, por sua vez, constituem o período em que Estados Unidos e Europa passaram por significativas transformações, para se adaptarem a essa reorganização fundamental do sistema produtivo mundial.

Como resultado, verifica-se hoje um panorama industrial bastante diferente daquele de meados do século XX. Hoje, sabe-se que a geração de tecnologia é a única forma de agregar valor às transações comerciais de um país ou região, possibilitando-lhe o acúmulo de riqueza. As corporações industriais atualmente trabalham com o lançamento constante de novos produtos que incorporem, sempre que possível, novas tecnologias. Quando um produto é lançado, já se encontra em fase final de desenvolvimento o novo lançamento que será feito poucos meses depois, e já se encontra em estágio inicial de desenvolvimento o produto subsequente.

Uma mudança estrutural na cadeia produtiva então ocorreu: a tecnologia, que anteriormente era tratada como um elemento de infra-estrutura de uma corporação, que dava apoio ao funcionamento de sua linha de produção na qual os produtos eram montados, muda de status. Ela própria, a tecnologia, torna-se “produto" de uma cadeia produtiva específica. Por um lado, dentro dessas corporações, passam a se constituir setores que operam como em linha de produção, entregando como produto o projeto de novos produtos.

A divisão do trabalho que surge passa a afetar a própria configuração do universo de corporações, gerando um novo tipo de empresa: aquela cujo produto é o projeto de novos produtos ou então o pacote tecnológico. Indústrias de diversos ramos passam a encomendar projetos de empresas especializadas nesse novo tipo de serviço. Para exemplificar, suponha-se uma indústria automobilística, preparando o lançamento de um novo modelo. Essa indústria, via de regra, aglutina componentes (faróis, radiadores, motores, etc) que serão produzidos por outras empresas. Uma indústria que irá fabricar, por exemplo, os faróis do novo modelo, pode hoje encomendar o projeto em uma empresa especializada em projeto de produtos, deixando de ter um setor próprio de projeto, e passando a se concentrar na atividade de produção. Esse exemplo já se materializa em diversas partes do mundo, e representa grandes ganhos de competitividade para as respectivas regiões.

A Pós-Graduação em Modelagem Computacional e Sistemas é uma especialidade da área tecnológica que surge ligada a esse novo paradigma tecnológico e industrial. Sua missão se refere à transformação do projeto de novos produtos de alta agregação tecnológica em um tipo de produto de uma cadeia produtiva. Em todo o mundo, a partir do momento em que não foi mais possível obter avanços significativos em processos partindo apenas da evolução do projeto de seus sub-processos, e as ferramentas existentes deixaram de ser suficientes para atender às crescentes demandas, novas metodologias passaram a ser desenvolvidas, considerando explicitamente a questão da complexidade. A evolução da Modelagem Computacional e de Sistemas, da maneira como ocorre hoje, inclui o desenvolvimento e a identificação de novos métodos e de novas técnicas de modelagem, que possam auxiliar na compreensão dos sistemas à medida em que sua complexidade aumenta.

A Pós-Graduação em Modelagem Computacional e Sistemas será um campo interdisciplinar das áreas tecnológicas, cujo foco é o desenvolvimento e a integração de processos/sistemas artificiais complexos. A Pós-Graduação em Modelagem Computacional e Sistemas irá integrar disciplinas e especialidades para a formação de um processo estruturado de desenvolvimento que se desdobra desde a concepção, até a produção e a operação do processo/sistema. No caso do curso de Pós-Graduação ora proposto, será dado maior enfoque à etapa de concepção – na qual são observadas demandas talvez insuficientemente atendidas pelo elenco de cursos de tecnologias hoje disponíveis no país. Essa etapa de concepção de novos produtos de elevada agregação tecnológica pode ser considerada como uma das chaves para a consolidação do setor industrial nacional, possibilitando-lhe um posicionamento de centralidade no cenário da divisão internacional do sistema produtivo. Essa etapa se articula com as tecnologias das instalações produtivas, dos sistemas de manufatura e da operação de plantas, todas elas relativamente bem desenvolvidas no país.