Linhas de pesquisa

O programa possui duas linhas de pesquisa:
A) Cultura, Relações Sociais e Gênero
B) Poder, Trabalho e Identidades

a) Cultura, Relações Sociais e Gênero

Essa linha de pesquisa busca compreender a sociedade através das múltiplas práticas culturais e discursivas que constituem o sujeito, suas experiências e vivências. Essa perspectiva engloba tanto o interesse pelo coletivo configurado no estudo dos grupos sociais, quanto pelos indivíduos comuns (representativos ou singulares) e suas relações com o social. Ao fugir dos modelos globalizantes e das certezas oriundas de verdades únicas, as reflexões realizadas abrem espaço para a percepção da complexidade e diversidade do social. A realidade histórica das sociedades é percebida como multifacetada, dinâmica e descontínua requerendo aproximações e interseções constantes com outros campos do conhecimento. Nesse sentido, é fundamental à linha o viés teórico das representações sociais, pois trabalha buscando percepções e sensibilidades, crenças, símbolos, opiniões, normas, valores, interesses, ideias, planos, costumes, tradições, projetos e formas dos sujeitos e dos grupos humanos representarem a si mesmos, a sociedade, o tempo, o espaço e o mundo. Interessa a produção de significados, a percepção do conflito nas relações de poder produzido no âmbito do simbólico, a invenção de valores, modos de vida e formas de sobrevivência, as relações entre o sagrado e o profano, a ação dos discursos, a construção de sentidos e imaginários ordenadores do real, bem como as relações com os novos meios de produção e reprodução das representações sobre o real. A abordagem baseada nas representações sociais nega a possibilidade do acesso ao passado tal qual foi vivenciado e considera os documentos como vestígios do passado que apresentam determinados ângulos do real, captados por olhares condicionados socialmente.
A concepção de cultura que orienta a produção das pesquisas articula-se à antropologia cultural e interpretativa bem como à teoria literária. O diálogo com a antropologia permite uma noção mais ampla de cultura que engloba modos de ser, fazer e sentir. Considera-se a importância da interpretação das formas simbólicas utilizadas por um povo, mas também a transformação histórica, a particularidade contextual e o cuidado empírico. Nessa perspectiva não apenas as representações, mas também as ações sociais dos sujeitos são tomadas como textos, passíveis de serem culturalmente interpretados. A aproximação com a teoria literária permite entender que não há descrição ou concepção da realidade que não seja mediada pela linguagem e que na análise do passado, os documentos estabelecem limites e controlam informações, mas não revelam a trama. Interessa ainda à linha, a cultura material que abarca artefatos que constitui o ambiente social e econômico de determinada sociedade e produz diferenças no interior de um mesmo agrupamento humano, possibilitando observar elementos que agregam ou separam os grupos sociais. Destacam-se, ainda, os estudos sobre a cultura visual que, a partir de investigações centradas em abordagens sobre os processos culturais: hábitos, costumes visuais, práticas cotidianas de olhar e de exposição, referentes a um ou vários povos, procura entender os aspectos visuais como fonte de transmissão cultural bem como as relações e interferências que os sistemas culturais acarretam ao processo visual de identificação, representação e entendimento do mundo e da realidade.
A linha se orienta ainda pela compreensão de relações sociais engendradas em jogos de poder. Assim investiga as múltiplas relações que o sujeito estabelece ou que é envolvido na vivência das suas experiências frente ao Estado, a comunidade, a família, a cultura, a religião, a guerra, as instituições, às normas sociais, as formas de controle e disciplina, a lei e a ordem, ao exercício dos micropoderes e as necessidades de sobrevivência, entendendo como essas relações se constituem e se exercem. Interessa o estudo de relações sociais entre indivíduos e diferentes grupos, pautadas pela conciliação e adaptação, mas também pelo conflito; dessa forma o enfoque recai tanto nas relações de solidariedade, reciprocidade e ajuda mútua, desenvolvidas numa sociedade, como também nas relações de violência em suas diversas formas: coletiva, costumeira, familiar, institucional, normativa, simbólica, as tensões cotidianas e a violência de gênero.
A linha também abriga o gênero como um dos seus eixos de pesquisa. Nessa perspectiva o enfoque recai não apenas sobre as relações sociais e culturais entre os sexos, marcadas por assimetrias e desigualdades fundadas em determinismos biológicos abordagem característica dos primeiros estudos mas também sobre os processos e dispositivos de construção social, cultural e histórica do gênero, das representações do feminino e do masculino, das feminilidades e masculinidades, das identidades sexuais, dos corpos e sexualidades e das relações hierárquicas de poder entre homens e mulheres numa dada sociedade. Nessa abordagem o gênero não é compreendido como uma propriedade de corpos ou algo existente a priori nos seres humanos, mas, como o um conjunto de efeitos produzidos em corpos sexuados, em comportamentos e relações sociais. Interessa assim, o estudo de práticas discursivas, dos regimes de verdades e dos aparatos instituidores e construtores do gênero como forma de desconstruí-lo como algo natural e imutável. Nessa mesma direção, o corpo e a sexualidade são entendidos como construções sociais, interessando à linha as formas como são representados, inventados, produzidos, configurados, normatizados, disciplinados e significados em diferentes contextos históricos. Tendo em vista a reclamada ausência das mulheres na história, o enfoque de gênero recai também sobre as mulheres e suas múltiplas experiências, sejam elas individuais ou coletivas em diferentes espaços sociais, culturais e históricos, como a maternidade, casamento, família, relações afetivas e amorosas, amizade; sua atuação na esfera política seja em movimentos sociais e comunitários, nos partidos políticos e nas lutas feministas; no mundo do trabalho como empregadoras, trabalhadoras, sindicalistas, profissionais liberais, autônomas; suas relações com a criminalidade, a norma, e a violência sofrida e praticada; suas produções artísticas, literárias e intelectuais; as múltiplas identidades vivenciadas por elas simultaneamente na contemporaneidade. A construção da narrativa histórica sobre as mulheres não se dá apenas sobre documentos que falam delas, mas, sobretudo, aqueles produzidos por elas, assim ganham relevância na linha seus escritos, sejam eles memorialísticos, literários, autobiográficos, jornalísticos ou acadêmicos, bem como a oralidade, as imagens e as diferentes práticas culturais e discursivas que permitem ao/a historiador/a reconstruir as complicadas tramas, relações, representações e atuações das mulheres no passado através da voz dos outros e delas mesmas.

 

b) Poder, Trabalho e Identidades

O poder é o elemento central das reflexões nessa linha. Estudar o poder significa abordar um conjunto complexo de relações sociais, onde interagem os mais diversos agentes, sejam eles individuais ou coletivos institucionalizados ou informais. O poder, pensado em uma perspectiva relacional e descentrada, está presente nas várias instâncias da sociedade, atravessando diversas áreas, entre elas o trabalho e as identidades. Nesta definição, o poder não está circunscrito à esfera do Estado e da política formal. Para além das opções e ações racionalizadas, ele se revela também nas representações e imaginários sociais, na formação e transformação dos discursos, memórias, identidades, mitos, rituais e símbolos que integram variadas culturas políticas.
O próprio Estado é re-conceituado. Ele é um, entre outros lugares, onde circula, se disputa e se exerce o poder. Optar por esta via permite evitar a leitura do Estado como um mero instrumento de classe, visão tributária de determinismos sociais e econômicos e, simultaneamente, afastar-se da definição idealista do Estado, a qual tende a abordá-lo como um ente externo aos conflitos sociais. Assim, reconhece-se o Estado como instância onde se condensam e se debatem as forças políticas. Ele apresenta uma dinâmica própria, mas não se separa da vida social; é uma arena de conflitos e disputas, em que participam com variados graus de intensidade e influência os diversos grupos. Transformado no interior do processo histórico do último século e repensado em termos conceituais, o Estado continua sendo um objeto importante nos estudos sobre o poder, a exemplo de suas iniciativas como as políticas públicas, seus projetos de ordenamento social e territorial, suas parcerias com a sociedade civil, assim como, de outro lado, é relevante investigar os gestos, discursos e ações dos grupos diversos que buscam dirigi-lo nas suas diversas esferas.
A problemática do poder também se apresenta no âmbito do trabalho. Dimensão central do mundo moderno, o trabalho é um dado constituído e constituinte das relações sociais, intervém no cotidiano e informa a vida privada e pública. Abordá-lo implica, dessa forma, abrir-se para estudos concernentes às relações entre senhores e servos, senhores e escravos, empresários e operários, formas de trabalho informal e autônomas tanto nos ambientes rurais quanto nos urbanos. Não obstante a centralidade do binômio capital-trabalho, a história destas relações revela um conjunto complexo e multifacetado que extrapola considerações binárias, porque reúne, simultânea ou alternadamente, ações coercitivas, os momentos de violência, repressão, resistência e, também, opções que revelam aproximação, negociação, composição e consentimento. O reconhecimento das distintas formas em que são vivenciadas as relações de trabalho implica na escolha por uma conceituação da classe enquanto um processo, um fazer-se que é, por ser histórico, ao mesmo tempo cultural, econômico e político. Assim, classe não é uma coisa, mas sim um conjunto dinâmico de vivências, de composição, distanciamento e conflitos que se dá nos cenários públicos e também na vida cotidiana, nas práticas de lazer, nas festas, nos ambientes externos ao labor propriamente dito.
Pesquisar os mundos do trabalho implica reconhecer as transformações do mesmo ao longo do tempo, entre elas, a re-configuração das lutas no interior da sociedade contemporânea, em que se fragmentam as estratégias de ação e se torna mais complexo o processo de construção de identidades sociais e políticas. Para além do chão da fábrica, do operário industrial e das organizações sindicais, símbolos de um tempo histórico, os mundos do trabalho dizem respeito também a outros personagens como prestadores de serviços, subempregados e donas de casa. Suas experiências, por sua vez, se manifestam em estratégias complexas e sutis, escapando às formas institucionais, o que implica na pesquisa de novas fontes e, consequentemente, novas abordagens metodológicas.
Os mundos do trabalho também se particularizam no espaço. Dessa forma, combinando e ao mesmo tempo conflitando com as mudanças perceptíveis no movimento diacrônico, as relações de trabalho apresentam especificidades territoriais, condicionamentos oferecidos pela história de cada região ou país, aspectos que requerem a acuidade do pesquisador e colocam em xeque padrões e modelos explicativos generalizantes A formação das identidades são, por sinal, vetores importantes na configuração do trabalho e nos conflitos sociais e políticos. Plurais e versáteis, elas falam dos embates individuais e coletivos; dizem também dos atritos e negociações entre poder público e sociedade civil. Dessa maneira, uma mesma pessoa ou grupo compartilha identidades diversas, recorrendo a elas conforme as circunstancias históricas se lhes apresentam. Os discursos identitários locais, regionais e nacionais, podem ser estratégias de organização e sobrevivência de comunidades tradicionais, grupos rurais ou urbanos como também informam mobilizações de outros segmentos como empresários e lideranças político-partidárias. A internacionalização do capital e a chamada compressão espaço-tempo não eliminaram as particularidades territoriais. Os dois processos internacionalização e localização parecem, na realidade, integrar a própria dinâmica do mundo atual. A nação, questionada no bojo do processo de aparente enfraquecimento dos Estados frente à proeminência dos organismos internacionais, permanece como uma instituição/agente central na contemporaneidade. Portanto, esta linha se abre para as pesquisas que elegem a problemática do poder, atentando para a sua presença, circulação e exercício no âmbito do Estado, da sociedade civil, das relações de trabalho e das múltiplas identidades.